02 dezembro 2017

«Batida Dupla»… só que não!

Antes de mais nada, leia o post anterior, «O Processo de Fabricação de Moedas». Aquele post é importante e foi criado para que seja plenamente compreendido o que será dito nesta postagem. Se você já leu, releia.

Existe uma grande confusão entre os numismatas brasileiros e inclusive entre os comerciantes, mesmo os de renome e com muitos anos de experiência no COMÉRCIO numismático  (e nem sempre nos ESTUDOS numismáticos…), acerca de determinadas anomalias que ocorrem nas moedas brasileiras (e também mundiais), as quais por aqui denominam todas genericamente pelo nome «Batida Dupla».

Algumas se tornaram catalogadas e aparecem nas obras de J. Vinicius, Arnaldo Russo e Carmelito Gomes, e às vezes com cotações altas. Outras, ganharam até mesmo apelidos próprios, como «Mapa Duplo», «Brasil Duplo», etc., porém nenhuma das obras explica o que são essas anomalias e muito menos as suas causas, apenas descrevem o que veem, e inventam apelidos. Pior, tampouco as diferenciam, já que NÃO SÃO todas a mesma coisa, e TODAS as obras escritas até o presente momento, em português, erram em denominá-las como batidas duplas. Simplesmente se limitam a dar cotações, mas como podem cotar o valor daquilo que desconhecem as causas e a sua real importância?

Então passemos a esclarecê-las. Na verdade, estamos lidando com três anomalias diferentes, denominadas «Batida Dupla», «Matriz de Cunho Duplicada» e «Duplicação de Máquina».

A primeira, «Batida Dupla», é bastante óbvia. Porém, estas duas últimas requerem uma explicação bastante detalhada, pois à simples vista, para o numismata desinformado, parecem ser a mesma coisa, porém possuem causas totalmente diferentes. Assim sendo, passo agora a descrever da forma mais cuidadosa possível para que sua identificação seja inequívoca.

 

BATIDA DUPLA (Double Strike): É bastante óbvia à simples e primeira vista. Durante o processo normal de cunhagem, um disco em branco é atingido uma vez pelos cunhos de anverso e reverso, e em seguida a moeda é ejetada. Se uma moeda não for ejetada corretamente, será atingida novamente pelos cunhos. As moedas podem ser inclusive atingidas várias vezes, ocorrendo batidas triplas, quádruplas, etc. (e receberão estes nomes, conforme o número de batidas) e em diversos ângulos distintos daqueles da primeira batida. As batidas duplas podem ocorrer totalmente dentro do disco, ou atingindo somente uma parte do disco, mas SEMPRE em ambos os lados das moedas, anverso e reverso. Todos os elementos do design do cunho são visíveis.

As Batidas Duplas são sempre anomalias importantes, do tipo que chama a atenção ao primeiro olhar, e por isso são muito procuradas e costumam atingir bons preços de mercado, em moedas de todo o mundo. Na numária brasileira, não costuma aparecer com grande frequência. Faz parte dos melhores tipos de anomalias dos quais se pode recolher para a coleção. É preferível aquelas peças que apresentem a data visível.

Seguem exemplos abaixo em moedas brasileiras.

Imagem: Leilão Miguel Salles

Imagem: Coleção Wagner Lambertuci, que a apelidou graciosamente de «505 Centavos»

Imagem: Coleção Luan Catellan

Imagem: Coleção Luan Catellan

Um esclarecimento: Como poderás perceber, a moeda desta última imagem possui a segunda batida totalmente invertida em relação à primeira. O ângulo das batidas subsequentes nesta anomalia é irrelevante e não influi em nada, já que é causado por simples sorte e acaso, no saltar parcial da moeda de dentro da virola.

 

MATRIZ DE CUNHO DUPLICADA (Doubled Die, Hub Doubled): Ocorre durante o processo de fabricação dos cunhos, e não durante a cunhagem das moedas.

A Matriz de Cunho Duplicada ocorre durante o processo de criação do cunho macho (mestre) pelo Pantógrafo, máquina que reduz o design a partir de uma matriz de Gesso para um cilindro de aço do tamanho exato da moeda que será cunhada, produzindo assim o cunho macho (mestre). Falamos sobre o Pantógrafo no post anterior.

O erro ocorre quando o Pantógrafo esculpe elementos duplicados no cunho macho (mestre).

Por consequência, os elementos duplicados do design se encontram deslocados, porém todos se veem de alguma forma simétricos e/ou alinhados com relação ao elemento original. Além disso, os elementos duplicados possuem a mesma “altura” do relevo do elemento normal.

Como resultado, todos os cunhos fêmea (que irão cunhar as moedas) produzidos por este cunho macho (mestre) defeituoso, serão igualmente produzidos com elementos do design duplicados em negativo, e a duplicação aparecerá em positivo em todas as moedas produzidas por esses cunhos defeituosos.

No passado, os erros de Matriz de Cunho Duplicada eram muito mais dramáticos devido ao processo de fabricação dos cunhos serem realizados por um Pantógrafo mais rudimentar. Embora a utilização moderna de computadores no processo de design e fabricação das Casas da Moeda tenham reduzido muito o número de erros e anomalias de cunhos, a possibilidade sempre irá existir.

É muito raro que uma duplicação nos elementos de design de um cunho macho (mestre) passem desapercebidos nas Casas da Moeda de todo o mundo. Mas, ao que nos parece, atualmente, na Casa da Moeda do Brasil tal controle de qualidade não é tão eficiente quanto pensamos que deveria ser, haja vista a enorme quantidade de moedas com Matriz de Cunho Duplicados encontrados, de diversos anos e denominações, ou simplesmente fazem a vista grossa quando detectados.

Tais moedas não deveriam existir, nem mesmo seus cunhos defeituosos com elementos duplicados deveriam existir. Há uma cadeia de várias pessoas, desde o operador do Pantógrafo, passando pelo funcionário responsável pela criação dos cunhos-fêmea a partir do cunho macho, passando pelos funcionários responsáveis na inserção dos cunhos fêmea de anverso e reverso nas máquinas, até o pessoal do controle de qualidade, que poderiam ter percebido o defeito no design do cunho macho, dos cunhos fêmea, e até nas moedas já cunhadas. Por isto mesmo, são anomalias importantes, e sempre possuem uma boa valorização.

Seguem agora exemplos dessa anomalia em moedas americanas e brasileiras.

Primeiro, a «Matriz de Cunho Duplicado» mais famosa dos Estados Unidos, a «1955 Doubled Die Obverse Lincoln Cent»:

A história desta anomalia americana é bem conhecida. À época, a Philadelphia Mint, a Casa da Moeda da Filadélfia, estava executando dois turnos de 12 horas cada, pra ajudar a aliviar a falta de moedas de 1 Cent. Pelo menos sete pessoas deveriam ter inspecionado o cunho macho (mestre) antes do mesmo ter sido utilizado para produção dos cunhos fêmea que cunhariam as moedas, mas isto claramente não ocorreu. Em vez disso, os cunhos fêmea foram postos em serviço entre 0h e 8h da manhã. O problema não foi descoberto até que cerca de 20.000 a 24.000 centavos já haviam sido cunhados e misturados com milhões de centavos cunhados naquela noite. O Chefe da Philadelphia Mint, Sydney C. Engel, decidiu deixar passar as moedas, ao invés de ter que derreter cerca de 10 milhões de centavos para contê-las.

Na numismática brasileira, ocorrem ainda, anomalias de Matriz de Cunho Duplicado nas atuais moedas circulantes do Plano Real 2ª Família, em diversas datas e denominações:

5 Centavos 2005 “Brasil Duplo”: Descoberta e fotografada pelo numismata Tiago Minosso

Tenho conhecimento das seguintes denominações e datas em meu banco de dados:

R$ 0,01: 2000
R$ 0,05: 2002, 2005 (“Brasil” em duplicidade, bastante deslocado, imagem logo acima)
R$ 0,10: 1998, 2000, 2001, 2008
R$ 0,25: 2001 (existem duas, uma no anverso e outra no reverso)
R$ 0,50: 1998
R$ 1,00: Nenhuma peça conhecida

(Solicito a gentileza de me informarem sobre novas datas, com imagens em alta resolução, pra que a tabela acima seja sempre atualizada).

 

DUPLICAÇÃO DE MÁQUINA (Machine Doubling, Mechanical Doubling, Shift Doubling, Strike Doubling): Embora a princípio seja, à primeira vista, e com olhos destreinados, idêntico à Matriz de Cunho Duplicado, as causas e o resultado são diferentes: Os cunhos não estão defeituosos, e sim, o erro ocorre durante o processo de cunhagem.

Essa anomalia ocorre quando peças mecânicas (principalmente os cunhos) que estão frouxas, mal apertadas ou soltas na máquina de cunhagem causam um golpe mais fraco do que o normal dos cunhos sobre as moedas, fazendo com que determinados elementos saiam trêmulos e/ou duplicados. Porém, não há duplicação de elementos no cunho, apenas nas moedas cunhadas.

Como bem disse o amigo numismata Warley Soares, que, graciosamente (e acertadamente!) disse, “é um problema na rebimboca da parafuseta”.

Por consequência, os elementos duplicados do design se encontram deslocados, porém todos se veem assimétricos e/ou desalinhados. Além disso, os elementos duplicados NÃO possuem a mesma “altura” do relevo do elemento normal, sendo mais baixo (intermediário entre a altura do design do elemento, e o campo da moeda). Se o cunho não estiver encaixado corretamente na máquina de cunhagem, ele pode mover-se ligeiramente ou saltar durante a cunhagem, criando as duplicações. O efeito será ligeiramente diferente ao longo do tempo, e muitas variedades (e não variantes…) poderão ser encontradas.

Esta não é uma anomalia importante, não possui valor de mercado significativo em nenhum lugar do mundo, (exceto pelo câncer da especulação, causado pela ganância financeira e desconhecimento de causa de alguns comerciantes) e deve ser inserida na coleção como UMA MERA CURIOSIDADE.

Na numária brasileira temos vários exemplos, sendo que a mais famosa «Duplicação de Máquina» brasileira é a moeda «1 Cruzeiro 1949» à qual apelidam (erroneamente) de «Mapa Duplo».

Reverso da moeda «1 Cruzeiro 1949» a qual chamam de «Mapa Duplo».
Cortesia da Imagem: Gilberto Fernando Tenor, Presidente da Sociedade Numismática Brasileira

O norte do estado de Roraima, e o Sul do Rio Grande do Sul no Mapa do anverso da moeda estão com elementos duplicados, além do BR de BRASIL e os traços assimétricos e desalinhados à direita e à esquerda. Todas as peças conhecidas de 1 Cruzeiro 1949 estão no estado de conservação MBC e inferiores. A mesma anomalia ocorre em moedas de 1 Cruzeiro de datas diferentes, e ´também na moeda de 2 Cruzeiros. Pra algumas, denominam de forma confusa como «Mapa Duplo ao Norte», mas é apenas uma variedade da mesma anomalia de Duplicação de Máquina.

Reverso da moeda «2 Cruzeiros 1949», a qual chamam de «Mapa Duplo ao Norte»
Imagem: J. Mesquita Leilões

Reverso da moeda «1 Real 2012 Entrega da Bandeira Olímpica», a qual chamam de «Bandeira Dupla»


Recentemente também surgiu Duplicação de Máquina em diversas denominações e eras do Plano Real, na qual destacamos em especial a que surgiu na peça «1 Real 2012 Entrega da Bandeira Olímpica», por ter aparecido no catálogo de Carmelito Gomes registrada erroneamente como «Batida Dupla», assim como algumas das peças da série das Olimpiadas. Todas são as anomalias insignificantes de Duplicação de Máquina.

Repare que igualmente à «Mapa Duplo», os traços em duplicidade, na palavra "REAL” são assimétricos e desalinhados, caracterizando inequivocadamente como Duplicação de Máquina.

 

Portanto, em síntese, temos:

BATIDA DUPLA: Cunhos batem mais de uma vez. Todos os elementos do design do cunho se repetem na segunda batida (e na terceira, quarta batida, etc… se houver).

MATRIZ DE CUNHO DUPLICADA: Cunhos batem uma vez. Apenas pequenas partes ou elementos do design se repetem, de forma simétrica e alinhada ao design. O elemento duplicado tem a mesma altura de relevo do elemento original.

DUPLICAÇÃO DE MÁQUINA: Cunhos batem uma vez. Apenas pequenas partes ou elementos do design se repetem, de forma assimétrica e desalinhada ao design. O elemento duplicado possui altura intermediária entre o relevo do elemento original e o campo da moeda.

 

Bibliografia utilizada:

- «The Cherrypickers' Guide to Rare Die Varieties», Bill Fivaz e J. T. Stanton
- «The Error Coin Encyclopedia», Arnold Margolis
- «The Complete Guide to Lincoln Cents», David W. Lange
- «U.S. Error Coin Guide», Stan McDonald
- «100 Greatest U.S. Error Coins», Nicholas P. Brown
- «World’s Greatest Mint Errors», Mike Byers
- «Error Coins from A to Z», Arnold Margolis

Finalizo com uma mensagem: Colecionar moedas anômalas é divertido e gratificante, porém é importante conhecer quais são as anomalias importantes e quais são erros sem importância. Espero que este artigo tenha sido útil para todos os amigos numismatas, especialmente para discernir claramente a diferença entre moedas com matrizes de cunho duplicadas e duplicação de máquina.

Caso reste alguma dúvida, deixe abaixo o seu comentário!

 

Atualização em 24 Junho ‘2020

Este artigo foi publicado (com revisões) no site «Numismática Castro» em 7 Março ‘2018 e dividido em dois.
Link: https://numismaticos.com.br/batida-dupla-ou-double-strike/

Link: https://numismaticos.com.br/matriz-de-cunho-duplicada-ou-hub-doubled/

 

Este artigo foi publicado (melhorado) no site «Collectgram» em 28 Fevereiro ‘2019 e dividido em dois.
Link: https://collectgram.com/blog/moeda-batida-dupla-a-verdadeira/ 

Link: https://collectgram.com/blog/moedas-com-erros-matriz-de-cunho-duplicada-a-falsa-batida-dupla/

01 dezembro 2017

O Processo de Fabricação das Moedas

Para explicar como ocorre, teremos que detalhar o passo-a-passo de como é feita uma moeda, a partir do zero, desde a mesa do artista até a fabricação dos cunhos e a cunhagem das peças. Infelizmente não disponho de imagens de moedas brasileiras pra ilustrar, pois a nossa Casa da Moeda esconde tal processo com um secretismo idiota, sendo que outras Casas da Moeda do mundo o divulgam abertamente. Por isso me servirei das moedas americanas e do processo americano, que é o mesmo que o brasileiro e utilizado mundialmente na atualidade.

Primeiro, é criada uma imagem no computador, do que será a moeda.


Com o esboço pronto, o artista escultor-gravador serve-se de um molde em gesso, no qual irá esculpir, em alto relevo, o design da futura moeda. Este processo também pode ser realizado mecanicamente.

Molde de Gesso original da moeda 5.000 Réis 1938,
em exposição na sede da
Sociedade Numismática Brasileira.
(Cortesia da imagem: Numismata Luan Catellan)


Um molde de borracha é criado utilizando o molde de gesso, pois o gesso é muito frágil.


A imagem da moeda é uma escultura de gesso com 8 a 12 polegadas de diâmetro. Esta é inserida em uma máquina denominada PANTÓGRAFO, que reduz a imagem da escultura em gesso ao tamanho real no qual será cunhada a moeda, criando assim uma matriz de cunho macho (mestre) em um cilindro de aço. Este é um processo lento e tedioso, demorando de um dia e meio a dois para completar a transferência do design da escultura de gesso para o cunho macho (mestre).

Agora começa a fabricação dos cunhos de trabalho (cunhos fêmea, aqueles que realmente irão cunhar as moedas).

HUB é o cunho macho (mestre) que foi criado pelo pantógrafo, à partir do molde em gesso. Com ele, cria-se os cunhos fêmea, ou DIE, que possui a imagem em negativo (baixo-relevo), que cunhará as moedas.

O processo de metalurgia utilizado para criar matrizes de cunho é denominado Hubbing. É um processo à frio, o que significa que ocorre bem abaixo da temperatura de fusão do metal que está sendo trabalhado.

No hubbing, o cunho macho (mestre) criado com o pantógrafo é utilizado para a fabricação dos cunhos fêmea (de trabalho, que irá cunhar as moedas). O cunho macho é geralmente endurecido e é exatamente igual à futura moeda, e o bloco de aço de matriz fêmea é amaciado por recozimento para ajudar a formar a impressão do cunho fêmea (que terá uma imagem em negativo). À medida que o cunho macho atinge o bloco de aço de matriz fêmea, esta é deformada, e usinada de forma plana. No geral, o cunho macho é um cilindro reforçado por um anel de aço circundante durante o processo de cunhagem. O hubbing é geralmente um processo menos caro do que o mero processo de usinagem da matriz fêmea, e várias matrizes de cunho podem ser feitas a partir do cunho macho.

Cada cunho assim produzido possui uma vida útil média de 1.000.000 de cunhagens, ou seja, 1 milhão de moedas cunhadas. Pela quantidade de moedas brasileiras encontradas com anomalias de cunho rachado e quebrado, sabemos que nossa Casa da Moeda prolonga essa vida útil pra bem mais que 1 milhão de cunhagens.

Uma bobina de aço é desenrolada e inserida em uma máquina que cortará os discos para a fabricação das moedas. Estes discos serão então lavados, e inseridos na máquina de cunhagem.

Os discos em branco entram na máquina de cunhagem, que produz 750 moedas cunhadas por minuto. O disco cai em um buraco, chamado VIROLA, que possui o cunho fixo (geralmente de Reverso) abaixo. A virola impede que o disco se expanda durante a cunhagem. O cunho móvel (geralmente de Anverso), também chamado de “martelo”, bate no disco, cunhando assim a peça.

Daí as peças irão para outra máquina, que as irá pesar e ensacar em sachês (Brasil) ou inserir as moedas em rolos de papel (EUA), e daí, vão pros bancos pra serem distribuídos à população.

Como se pode perceber, não há muito mistério, e, quando compreendemos bem como funciona o processo de fabricação das moedas, desde o esboço inicial, passamos a entender também como as anomalias ocorrem.

Decidi postar aqui o passo-a-passo, não só pra ilustrar o processo de forma detalhada, mas também porque estas explicações serão necessárias para o próximo post do blog, onde falarei sobre uma anomalia muito importante: A Batida Dupla, que precisa ser explicada e desmistificada.

Deixe abaixo o seu comentário!

30 novembro 2017

Danos Causados por PVC

Considere as seguintes questões:

Selos e Cédulas são ambos feitos geralmente em papel. Logo, o que vale pra um, também vale para o outro, e também para qualquer material colecionável feito em papel, tal como apólices, documentos antigos, etc.

Leuchtturm, assim como outras marcas de primeiríssima linha que produzem álbuns e acessórios para filatelistas e numismatas, tais como Lindner, Hawid, Prinz, SAFE, Importa, Yvert et Tellier, Stanley Gibbons, KABE, Scott, etc, utilizam uma espécie de plástico denominado POLIÉSTER (PET), também chamado pelos nomes fantasia de "Mylar" ou "Rhodhoid", dependendo do país. Esse tipo de plástico foi desenvolvido especialmente a pedido de museus de arte, para acondicionar documentos valiosos/históricos sem que o tempo as deteriore. Algumas dos fabricantes supracitados também utilizam o POLIPROPILENO (PP), que tem qualidade semelhante. Tanto a PET quanto a PP são totalmente inertes, não se alteram com o tempo. Não mudam de cor, não começam a rachar ou craquelar, não liberam ácidos, não vão ressecar. E por isso mesmo, custa caro.

Marcas mais "populares", de origem nacional, de origem chinesa, ou de origem duvidosa, etc, utilizam materiais inferiores, e por isso custam bem menos. No geral, utilizam um plástico denominado POLICLORETO DE VINILA (PVC), repleto de aditivos químicos que o tornam o plástico mais flexível (mais mole) que o PET e o PP descritos acima. De todos os tipos de plástico, esse é o pior plástico possível pra se armazenar cédulas, selos e moedas, ou qualquer objeto de coleção, pois não é inerte.

A lenta degradação natural da celulose dos papéis de selos e cédulas, os vapores das tintas neles impressas, os metais das moedas, todos interagem quimicamente com o PVC, que passa a liberar HCl, ou seja, ÁCIDO CLORÍDRICO, o mesmo ácido que temos no estômago pra digerir alimentos. Nem preciso dizer que isso é sinônimo de desastre à vista. O HCl é extremamente ácido. O H+ em contato com a peça de coleção, mais o O2 (oxigênio) mais o CO2 (Gás Carbônico, encontrado em abundância na atmosfera, e mais ainda no ar de cidades poluídas) vai causar o amarelamento das fibras de celulose nos papéis, e o famoso ''verdete'' nos metais. É fácil verificar o processo, e é rápido, com poucos dias de armazenamento já é possível averiguar que todo o design da moeda já começa a ficar como que ''impresso'' no plástico, com uma camada branca. Pra piorar, o Cl- em contato com umidade atmosférica forma ácido hipocloroso HClO, e daí pode sair de tudo, até mesmo ácido clórico HClO3. Ou seja, estamos atacando a peça de coleção com Di-Hidróxi-carbonato de Cobre-II (nas moedas com cobre na liga), como também com os ácidos clorídrico, hipocloroso e clórico.

Isso em papéis causa o amarelamento e ressecamento das fibras de celulose, tornando o selo ou cédula quebradiço, até esfarelar por completo com o tempo. A tinta impressa no selo/cédula também começa a desbotar fortemente. As folhas de PVC dos álbuns se tornam amareladas, grudentas, ressecadas e quebradiças.

Já nas moedas, os danos causados pelo PVC se apresentam como uma gosma verde, cinza ou leitosa, e às vezes se apresenta nas peças como manchas. As moedas de Cobre são as mais suscetíveis aos efeitos ácidos do PVC, seguidas das de Prata, Ouro e Platina. Se eram flor de cunho, o prejuízo será grande, pois as peças estarão arruinadas para sempre.

Há um detalhe importante: Uma vez que uma moeda danificada por PVC entra em uma coleção, o resíduo de PVC daquela única moeda pode se espalhar para as demais, como um vírus. Por isto, é fundamental evitar adquirir moedas com danos de PVC. Manchas esverdeadas ou cinzentas, ou algo parecido com um “pó branco” são os sintomas claros.

Moedas com superfícies limpas ou polidas, também devem ser evitadas, pois talvez tenham sido esfregadas justamente para remover resíduos de PVC. Esta, aliás, é a razão principal pela qual as moedas limpas ou polidas deixaram de ser bem vindas na numismática mundial, exceto em determinadas casas numismáticas antigas instaladas no Brasil. Pelo mesmo motivo, os numismatas devem eliminar de suas coleções quaisquer moedas que exibam sintomas de contaminação. Alguns resíduos de danos iniciais causados por PVC podem ser eliminados das moedas lavando-as com acetona 100% pura por cerca de 30 segundos, porém os efeitos deletérios do PVC são irreversíveis. Para papéis (selos e cédulas) não há remédio, a não ser o lixo.

Por desconhecimento ou má-fé, os vendedores tentam empurrar cédulas manchadas com o eufemismo de “manchinhas do tempo”. São danos causados por PVC, em sua maioria, e tais peças não devem entrar em coleções sérias. O problema é tão grave, que as empresas de classificação de moedas não aceitam peças que contenham até mesmo os menores vestígios de danos causados por PVC, e os selos contaminados por PVC, por estarem desbotados e com papel quebradiço, desvalorizam no mínimo 90% para o caso de selos caros. Os baratos e comuns, vão direto ao lixo.

"Leuchtturm ou outras marcas de qualidade são muito caras". Depende do que você vai por dentro dos álbuns. São moedas circuladas, baratinhas, comuns, que se compram nas ''bacias das almas'' das feiras numismáticas, vendidas ao kilo? Ou são moedas flor de cunho, caríssimas? São cédulas ou selos comuns, ou são cédulas e selos flor de estampa, mint, de maior valor? Se suas peças valem muito mais que o álbum, então não é caro.

Uma forma de “economizar” é utilizando envelopes para as moedas, de preferência feitos com papel acid-free, com envoltório em papel vegetal, igualmente acid-free, seguindo o «Método Bulgarelli». Este método, porém, tem a desvantagem de ser necessário desembrulhar cada peça para visualizar a coleção.

Siga as instruções dos especialistas e das autoridades no assunto. Aqui há um artigo específico sobre ''selos e plásticos'' com suas devidas interações químicas explicadas em detalhe, criado por Roger Rhoads, do comité de preservação e cuidados de materiais filatélicos da American Philatelic Society, dos EUA: https://stamps.org/userfiles/file/pcpm/StampsPlastics.pdf

Espero que este texto o faça repensar o armazenamento de sua coleção.

Deixe o seu comentário!

 

Atualização em 24 Junho ‘2020:

Este artigo foi reproduzido no site «Numismática Castro» em 13 Dezembro ‘2017.

Link: https://numismaticos.com.br/do-acondicionamento-de-moedas-notas-e-selos-em-plastico-pvc/


Atualização em 26 Outubro ‘2020:

Este artigo foi citado e teve trechos transcritos na «Revista Numismática Brasileira» Volume XXIII, Nº 1-2 de 2019, da Sociedade Numismática Brasileira. Link: https://snb.org.br/arquivos/boletins-e-artigos/revista-23/  

29 novembro 2017

De volta à Mordor…

Na obra de J. R. R. Tolkien, Mordor é a região ocupada e controlada por Sauron, no sudeste do noroeste da Terra Média e ao leste do Anduin, o grande rio. Orodruin, um vulcão em Mordor, era o destino da Sociedade do Anel (e mais tarde Frodo Baggins e Samwise Gamgee) na missão de destruir o Um Anel.

Nós podemos facilmente associar Mordor à comunidade numismática brasileira, um ambiente extremamente hostil, onde reinam alguns velhíssimos “Saurons” que empesteiam as entidades, sociedades e clubes numismáticos, comerciantes jurássicos que disseminam a semente da ignomínia, da soberba e da arrogância. Estes Saurons costumam se achar melhores pessoas que os demais, apenas por terem moedas caras em vossas coleções.

Além disso, ainda temos que aturar uma legião inteira de criaturas imbecis rastejantes saídas diretamente dos infernos, parecidas à vermes. Kurt Prober os denominava «bizonhos». O Dr. Solano de Barros os chamava de «nulóides» e «pulhas». Eu os chamo de «Golluns», e são geralmente vendedores, leiloeiros e rifeiros de moedas sujas e oxidadas encontradas no troco do pão. Não de boas peças de coleção, mas exatamente disto mesmo: Moedas circulantes, atuais, sujas e oxidadas e/ou com anomalias minúsculas e insignificantes, além de cédulas de cruzado e cruzeiro imundas, mofadas e esfarrapadas. Nas redes sociais, são como os gafanhotos.

My Precious…

Os gollum são facilmente reconhecidos não só por serem inacreditavelmente mal educados, mongolóides, feios e burros, mas por terem ZERO conhecimento em numismática, mas querem ensinar! Escrevem com uma ortografia de leitura sofrível, costumam defecar pela boca uma miríade de bobagens sobre numismática em vídeos do YouTube, disseminando ainda mais a pestilência “olímpica”. Alguns destes também gostam de colocar numismatas de renome em “Listas Negras” por meros R$ 5, e principalmente, costumam esbravejar e proferir palavras de baixo calão quando, de forma gratuita, são ajudados ou orientados. São criaturas perigosas, costumam andar em bando, e as vezes estão armados com uma escova de latão, grafite em pó, cera automotiva «Grand Prix», Pimenta «Gota», Vinagre e Catchup, e as vezes até mesmo com «Bombril».

Contra tudo isso, o «Caderno Numismático» está de volta e vai atacar com 10, com FORÇA TOTAL, para destruir o Um Anel da ignorância numismática. O ataque será brutal e não haverão prisioneiros! Vamos passar o Panzer por cima de todos estes!

Tanque de Guerra «T- 64BM Bulat», das Forças Armadas da Ucrânia


Si vis pacem, para bellum! Pimentorum annus outrem refrescorum est.

Estamos de volta!

15 junho 2017

Disco Fino e Grosso nos Cruzeiros de 1991


Poucos sabem, mas há esta diferença, sempre na data de 1991. Reparar que o peso também se torna inferior:


5 CRUZEIROS – SALINEIRO
Tiragem total: 510.000.000

Disco Grosso: 3,97 gramas e 1,4mm de espessura (*419.073.000)
Disco Fino: 3,40 gramas e 1,2mm de espessura. (*90.927.000)


10 CRUZEIROS – SERINGUEIRO
Tiragem total: 947.900.000

Disco Grosso: 4,36 gramas e 1,4mm de espessura (*867.694.000)
Disco Fino: 3,74 gramas e 1,2mm de espessura (*80.206.000)


50 CRUZEIROS – BAHIANA
Tiragem total: 74.945.000

Disco Grosso: 4,78 gramas e 1,4mm de espessura (*74.945.000)
Disco Fino: 4,09 gramas e 1,2mm de espessura. (*inclusa acima)

(* = Tiragens de cada variante segundo o catálogo Corso, "Guia das moedas cunhadas para circulação no Brasil")


O que são moedas aparentemente muito comuns e vendidas inclusive por kilo, passa a se tornar uma tarefa divertida, porém nada fácil, conseguir estas peças em seus respectivos discos grossos e finos em estado de conservação Flor de Cunho. Como se pode notar, as peças com discos finos correspondem a cerca de 10% da tiragem total.

Esta variante somente ocorre em 1991. Todas as peças de 1990 possuem disco grosso, e todas as de 1992, possuem disco fino.

25 maio 2017

Medalhas das Olimpíadas Rio 2016 estão enferrujando, oxidando, e se tornando sucata

Informações oficiais:

Foi produzido um total de 2.488 medalhas para a Olimpíada, todas elas com 85 milímetros de diâmetro e peso de 500 gramas – as medalhas mais pesadas das Olimpíadas de verão.

Cada uma das 812 medalhas de ouro contém 6 gramas de ouro (o mínimo requisitado pelo Comitê Olímpico Internacional). Os 494 gramas restantes são de prata com 92,5 de pureza, de acordo com a Casa da Moeda.

Cada uma das 812 medalhas de prata contém 500 gramas de prata esterlina e valem US$ 305. As 864 medalhas de bronze contêm 475 gramas de cobre (95%) e 25 gramas de zinco (5%). As medalhas de bronze têm pouco valor intrínseco.

 Menos de 1 ano após a realização dos Jogos, centenas de atletas estão reclamando que suas medalhas estão simplesmente descascando e manchando sozinhas. A matéria jornalística sobre o assunto pode ser lida aqui: http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/noticia/atletas-brasileiros-reclamam-de-defeitos-nas-medalhas-da-rio-2016-e-cogitam-troca.ghtml

Fica muito evidente que as medalhas, produzidas na Casa da Moeda do Brasil, não seguiram as especificações oficiais do Comitê Olímpico Internacional. Ao que parece, há uma camada de eletrorrevestimento nas mesmas, de má qualidade, insuficiente, muito fina.

Ouro: Medalhas são de Prata “esterlina” banhadas a ouro. Pra estarem ficando verdes, é porque há cobre ou bronze na composição. Ele deveria estar ali?

Prata: Medalhas deveriam ser de Prata “esterlina” (.925 ?) maciça. De forma alguma deveriam estar enferrujando ou descascando. Vez em quando são desenterradas moedas de Prata da época colonial do Brasil, peças que ficaram debaixo da terra recebendo umidade e toda sorte de agentes de deterioração, e nem assim essas peças começam a corroer. O mesmo ocorre moedas de Prata do Império Romano. Estão incólumes, apenas com a pátina natural. Por óbvio, já que prata é um metal nobre e não enferruja.

Bronze: Medalhas deveriam conter 475 gramas de cobre (95%) e 25 gramas de zinco (5%). Igualmente, jamais deveriam estar enferrujando. Fica óbvio que não é esta a composição real das peças.

Isso é um caso muito sério.

812 medalhas de prata + 812 medalhas de ouro (que deveriam ser prata banhada em ouro), são 1624 medalhas, e cada uma pesando 500 gramas, total de 812 kilos de prata “esterlina”, acima de titulagem .900. Está claro que esta prata toda não está nestas peças e com tantos escândalos de corrupção e desvios ocorrendo na política e nas instituições do governo federal, creio que aqui temos mais um. Onde foram parar esses 812 kilos de prata? Nas medalhas, não estão. Estas são apenas lixo, sucata. Se calhar, não servem nem como material para reciclagem.

Esse escândalo afeta DIRETAMENTE a numismática brasileira, já que há diversos colecionadores que adquirem as medalhas comemorativas, igualmente fabricadas e comercializadas pela Casa da Moeda do Brasil, e inclusive as moedas de coleção. Pra citar um exemplo, há relatos de colecionadores de que as moedas comemorativas olímpicas de 1 Real, cunhadas em método “brilliant uncirculated” e que estão acondicionadas em blisters oficiais, também estão manchando e descascando sozinhas. E não é por manuseio inadequado, já que a peça fica lacrada dentro do blister. Como confiar que a peça adquirida possui realmente a composição descrita?

Centenas de atletas estão devolvendo as medalhas para a Casa da Moeda, que se manifestou dizendo simplesmente que os descascados são “devido ao mal manuseio”. A quem querem enganar, afinal? Já está na hora de privatizarem esta estatal. Faz-se mister uma perícia nas peças, e a abertura de uma CPI na Casa da Moeda a fim de investigar o que houve e punir severamente os responsáveis.