24 janeiro 2019

Como as Moedas Bimetálicas são Produzidas

A idéia básica das moedas bimetálicas não é nova. O que é considerado por muitos como sendo uma das primeiras cunhagens de protótipos bimetálicos remonta a 1730, quando um token de prata com um plugue central em cobre foi cunhado em Köln, na Alemanha, embora o inglês Rose Farthing 1625-1649, durante o Reinado de Charles I, tivesse uma cunha de latão inserida no cobre como um dispositivo anti-falsificação.

Ao longo do séculos XIX e XX muitas fichas e medalhas foram cunhados por vários países, mas a primeira moeda bimetálica a ser amplamente utilizada nos tempos modernos foi a moeda de 500 Liras, emitida pela Itália em 1982. Hoje, mais de 117 países emitiram moedas bimetálicas e o número está crescendo. Essas moedas são cunhadas em muitas combinações diferentes de metais preciosos e básicos: Ouro amarelo e branco, ouro e prata, prata e titânio, prata e níquel, aço inoxidável não magnético e bronze-alumínio, e combinações de cobre ou latão e níquel, etc.

A grande preocupação quando essas moedas foram introduzidas foi a de que elas desmontariam durante o uso, mas isso não ocorreu. Centenas de milhões delas estão em circulação em todo o mundo, e esse problema simplesmente não ocorreu. Há também muitos poucos erros de cunhagem de anéis perdidos ou centros ausentes.

Um método antigo de produzir moedas bimetálicas era colocar um revestimento de um metal sobre um núcleo de outro metal. Isso foi feito frequentemente para disfarçar uma cunhagem degradada, por exemplo, usando um núcleo de cobre e um “banho de prata”. Roma emitiu pela primeira vez o Antoniniano como uma moeda de prata de 2 denários, mas valendo apenas 1 ½ denário. Essa moeda foi gradualmente rebaixada e atingiu seu nível mais baixo durante o reinado de Galiano (253-68), quando era uma moeda de cobre com uma finíssima camada de prata que rapidamente se desgastava. Isso foi possível mergulhando os discos de cobre numa solução de nitrato de prata de modo que o cobre da superfície fosse eletrolisado e entrasse em solução, e o metal prateado fosse depositado no disco.

As últimas moedas de prata de Henrique VIII da Inglaterra foram gradualmente rebaixadas até a última emissão (1544-47), cujas eram feitas de uma liga de uma parte de prata e duas de cobre (ou seja, 0,333 fino). Para fazer essas moedas parecer conter mais prata do que eles realmente produziram, os discos em branco foram, provavelmente, banhados em prata, ou embebidos em uma solução de ácido fraco para dissolver um pouco da superfície do cobre. No entanto, com o desgaste de circulação, a superfície de prata mais rica foi desgastada, particularmente nos pontos altos, como o nariz do rei, e isso levou ao seu apelido de Old Coppernose (“nariz de cobre velho”). Um bom número de moedas modernas também foram banhadas, ou galvanizadas, como as atuais moedas de circulação brasileiras.

Após a restauração de Charles II da Inglaterra, uma grande reforma da moeda ocorreu. Isso incluiu a emissão de HalfPennies e Farthings de cobre com peso total. No entanto, o preço do estanho havia caído, colocando as minas de estanho da Cornualha em crise, e o rei, como dono do Ducado da Cornualha, estava perdendo dinheiro. A fim de ajudar a indústria de estanho (e as finanças do rei), foi decidido cunhar todos os halpennies e farthings em estanho. Para ajudar a evitar a falsificação, um plugue quadrado de cobre foi inserido no centro dos discos em branco antes de serem cunhados. Assim, essas eram moedas bimetálicas de estanho com um plugue de cobre e foram emitidas de 1684 a 1692, durante os reinados de Carlos II, James II e William e Mary.

A Inglaterra também cunhou vários ensaios bimetálicos. Durante a Commonwealth e o Protetorado (década de 1650), e novamente durante o reinado de Charles II (particularmente entre 1665 e 1676), um número significativo de ensaios (tanto oficiais quanto privados) para cunhagem de metais básicos era bimetálico. Essas peças foram cunhadas por combinações como cobre com um anel de latão interno, reverso de cobre e anverso de latão, assim como latão com um centro de cobre, estanho com um anel interno de latão, e latão e estanho com um anel de cobre interno.

Novamente, no reinado de William e Mary, peças experimentais para uma proposta de cunhagem em “metais misturados” foram batidas (datadas de 1692) de cobre com um centro de estanho, e cobre com um fino anel de latão, tanto no anverso quanto no reverso. No entanto, em 1694, a Inglaterra reverteu para o cobre por sua cunhagem de metais básicos e parece ter abandonado seus experimentos de cunhagem bimetálica até 1844, quando Joseph Moore, de Birmingham, produziu seus centavos “modelo”, em cobre com um centro de metal branco. Esses eram uma proposta privada para substituir a pesada cunhagem de cobre então em circulação.

A Casa da Moeda dos Estados Unidos experimentou um centavo bimetálico para manter o tamanho da moeda gerenciável e atender aos requisitos da Lei de Cunhagem de 2 de Abril de 1792. Os primeiros centavos centrais de prata foram acertados de 17 a 18 de dezembro de 1792. Cada um foi fabricado à mão na Casa da Moeda, com os operários primeiro fazendo o disco em branco em cobre, e em seguida, perfurando um pequeno buraco, e inserindo um plugue de prata, e finalmente cunhando as moedas usando cunhos apropriados.

Outro tipo de moeda bimetálica é onde há um grande núcleo de um metal com um anel (de outro metal) ao redor do núcleo. Este tipo de moeda bimetálica vem aumentando em uso na última década. Alguns exemplos são:

– Centro de Bronze-Alumínio e anel em Aço Inoxidável (Austrália, 5 Dollar 1996);

– Centro de Bronze-Alumínio e anel em Cupro-Níquel (Nova Zelândia, 50 Cents 1994);

– Centro de Prata e anel de Ouro (Áustria, 500 schilling 1995);

– Centro de Bronzital (liga de alumínio, níquel e cobre) e anel de Acmonital (liga de Ferro, Cromo, Magnésio, Silício, Enxofre e Fósforo) (Itália, 500 Lire 1982);

– Centro de Cupro-Níquel e anel em Alpaca (Cobre, Níquel e Zinco) (Brasil, 1 Real 1998).


Outro tipo de moeda “bimetálica” é onde há um grande núcleo de três metais com um anel (de outro metal) ao redor do núcleo. Embora isso não seja realmente uma moeda bimetálica, elas parecem ser, e provavelmente estão sendo considerados pela comunidade numismática como tais. São exemplos:

– Centro de Níquel revestido de Níquel-Latão e anel em Cupro-Níquel (União Européia, 1 Euro 2002);

– Centro de Níquel revestido com Cupro-Níquel e anel de Níquel-Latão (União Européia, 1 Euro 2002);

– Centro de Aço Inox e anel de Aço-Carbono revestido com Bronze (Brasil, 1 Real 2002).

A imagem abaixo ilustra um método de unir os discos em branco bimetálicos. O anel externo é fabricado por uma ferramenta de matriz múltipla, que perfura o orifício central antes de se desfazer da tela. A borda externa levantada da placa, formada por “rimming”, ajuda a redução da pressão de cunhagem. O interior é feito muito parecido com um disco em branco comum, exceto pelo fresamento especial aplicado à borda. Quando os dois componentes são cunhados pela prensa de cunhagem, o anel externo deforma e o metal flui dentro das reentrâncias fresadas, proporcionando travamento anti-torção eficiente e aumentando a resistência da união. Esse método é utilizado pela Krupp VDM, um dos principais fabricantes alemães de moedas. Existem outras maneiras de unir discos em branco bimetálicos, com cada fabricante tendo seu próprio método preferido.

A força necessária para expulsar o núcleo interno do método Krupp destruiria totalmente a moeda. Krupp relata que a força necessária para expulsar um núcleo interno de 25mm de um anel externo de 25mm seria de 450 a 510 kPa, ou uma pressão de aproximadamente 68 a 72 libras por polegada quadrada.

Bacias contendo discos em branco que produzem a moeda bimetálica de 1 Real do Brasil: A bacia com os discos do núcleo (à esquerda) e a bacia com o anel externo (à direita). Ambas as peças serão encaixadas ao mesmo tempo em que ocorre a cunhagem da moeda, dentro da câmara de cunhagem da prensa.


Se duas ou mais folhas ou tiras de metal são colocadas em cima umas das outras com uma folha de alto explosivo acima e abaixo, e o explosivo é detonado, as folhas ou tiras de metal são soldadas juntas e sua borda aparentam um sanduíche de metais. O sanduíche de metal resultante é então referido como um metal “revestido” e pode ser trabalhado de maneira similar a outros metais, incluindo os vários processos para fazer moedas.

A Alemanha Ocidental utilizou várias combinações de metais folheados para sua cunhagem. O aço revestido de bronze foi usado para moedas de 1 Pfennig (1948-49) e 2 Pfennig (1967-95). O aço revestido de latão foi usado pra moedas de 5 Pfennig (1950-1995) e 10 Pfennig (1949). Utilizou-se níquel revestido com cobre e níquel para as moedas de 2 Mark (1969-1995) e 5 Mark (1975-1995). A Russia (após o fim da URSS) usou aço revestido de bronze pra suas moedas de 1 Rublo 1992 e de 5 Rublos. Devido ao aumento do preço pra prata em meados da década de 1960, os Estados Unidos decidiram parar de usar prata em suas moedas de circulação, e a partir de 1965, usar um metal revestido, e escolheram camadas externas de cupro-níquel com um núcleo de cobre.

Original text in, How bimetallic coins are made – Fleur de Coin, January, 2019. Available in: https://www.fleur-de-coin.com/articles/bi-metallic

 

Atualização em 28 Janeiro ‘2019:

Este artigo foi reproduzido no site «Numismática Castro» em 28 Janeiro ‘2019.
Link: https://numismaticos.com.br/como-as-moedas-bimetalicas-sao-produzidas/

07 maio 2018

Um Grande “Artista”

Este é o cartão de visitas da ilustre figura que é objeto desta postagem:

Muitos colecionadores de moedas brasileiras possuem em seu acervo algumas das “OBRAS” deste “ARTESÃO”, especialmente com moedas de aço inox das décadas de 1970’s e 1980’s. São cartelas em papelão preto onde são encaixadas as moedas, e também, caixinhas de acrílico. São facilmente encontráveis com os comerciantes e não custam caro.

Abaixo alguns exemplos:

São produtos até interessantes, que, mesmo sendo elaborados para moedas extremamente comuns, e, principalmente no caso dessa última cartela com dezenas de moedas, estar em uma forma de armazenamento imprópria às interpéries, são bonitas para exposição em alguma parede. Para a época em que foram lançados (anos 1970's), era uma maravilha. 

Mas as obras do famigerado artista não pararam aí. O que poucos sabem é que o “artesão em moedas” descrito no cartão de visitas é no sentido literal mesmo, pois também fabricou algumas réplicas muito bem feitas de moedas de outras épocas, especialmente moedas mais difíceis, caras ou raras da República. As peças são bem feitas, e enganam aos leigos. E por isso mesmo, comerciantes de má índole as empurram no mercado como sendo legítimas, e os desavisados as compram.

Seguem alguns exemplos:

500 Réis 1911
Crédito das Fotos: Bruno Pellizzari



500 Réis 1922 «BBASIL»
Crédito das fotos: Ricardo Forte


Consegues dizer qual das três moedas é falsa? 

Se disse que duas delas são falsas, acertou!


As fakes do ilustre “Artesão de Moedas” Moise Gabbai são reconhecíveis não só pela gravura do design possuir pouca profundidade, mas principalmente pela serrilha, que se assemelha a uma “roda dentada” de engrenagem de máquina, com os dentes em alto relevo. Nas moedas originais, a serrilha é sulcada, em baixo-relevo.

Por serem já “antigas”, muitas já irão possuir pátina.

Fiquem atentos com as moedas mais caras da República Velha, por exemplo: 500 Réis 1911 e 1912, além da 500 Réis 1922 BBASIL, e também com a 500 Réis 1932 da Série Vicentina (João Ramalho, “coletinho”). Ainda, as 2.000 Réis 1891, 1896 e 1897, a difícil 20 Réis 1927 e também o “Casal de 35”, de 50 e 100 Réis 1935, etc.

Muitos comerciantes de moedas, especialmente os leiloeiros do Facebook, tem o hábito de fotografar as peças somente em seu anverso e reverso. Para moedas de maior valor, em caso de interesse na peça, sugiro aos amigos solicitarem também fotografias da SERRILHA, além de fotos na Balança e Paquímetro, cujos dados devem coincidir EXATAMENTE com os dados técnicos constantes nos catálogos, especialmente para moedas de bons metais. Qualquer inconsistência, porosidades no metal, serrilha de “roda dentada”, é sinal pra ligar o alerta.

Nas moedas dessa época, o que parece verdadeiro (serrilhas de roda dentada, perfeitas e em alto relevo), é falso, e o que parece falso (serrilhas sulcadas toscamente, e até tortas), é verdadeiro.

Por falar nisso, que tal olhar agora mesmo as peças da sua coleção?

Deixe abaixo o seu comentário.

06 maio 2018

Aberrações Numismáticas

Já dizia Bezerra da Silva: «Malandro é malandro, mané é mané».

APRENDA: No mundo do colecionismo, seja de selos, cédulas, moedas… O que for! Qualquer peça que tenha a MÍNIMA suspeita de ter sido forjada, adulterada ou falsificada, provavelmente o é mesmo. As originais não deixam a menor margem pra dúvidas ou questionamentos.

DE TEMPOS EM TEMPOS, surge, no mundo da numismática, determinadas "aberrações" criadas no fundo do quintal, por gente inescrupulosa, com a intenção de enganar os colecionadores, que, junto com alguma estória extravagante, incrível e mentirosa, acaba se tornando uma espécie de “lenda”. E, mais incrível ainda: Mesmo sendo exaustivamente publicado que tais peças são FALSAS, ainda há os OTÁRIOS desprovidos do mínimo conhecimento sobre o assunto, que as compram por valores estratosféricos!

Pra citar exemplos, anos atrás surgiram as tais “Moedas Obsidionais Holandesas” de uma suposta “Botija” encontrada em Rio Formoso-PE, botija essa que com o tempo se mostrou um “botijão” do tamanho da caçamba de um caminhão, haja visto o grande número dessas peças no mercado numismático e nas mãos de colecionadores. Foi uma verdadeira febre, e até mesmo numismatas com alguma experiência derramaram muito dinheiro nessas peças.

Mesmo com numismatas de peso tais como Kurt Prober e outros dizendo em suas publicações que as mesmas são FALSAS MODERNAS, cunhadas de maneira absolutamente tosca, com ferramental moderno, demonstrando com detalhes que os cunhos são totalmente diferentes das peças sabidamente originais, e que até o teor de milésimas dos metais (Prata e Ouro) não conferia com as originais, (sendo as falsas de teor muito abaixo), e indo contra e batendo de frente com grandes comerciantes estabelecidos, ávidos, por ganância, em simplesmente auferir lucros às custas dos imbecis, ainda hoje, passados 50 anos de seu surgimento, essas porcarias ainda tem aceitação entre muitos colecionadores. Mas somente entre os estúpidos, claro. Numismatas não perdem tempo com esse lixo.


«Obsidionais: As Primeiras Moedas do Brasil»
Kurt Prober
Monografias Numismáticas XIII. Ed. Paquetá, Rio de Janeiro 1987. Tiragem: 1.000 exemplares

Obra fundamental sobre as raras moedas obsidionais da ocupação holandesa no Brasil e com especial atenção às peças falsas de uma suposta botija de moedas encontrada em Rio Formoso-PE que circulam até hoje entre os numismatas, muitas vezes sendo vendidas como sendo “obsidionais originais”. O autor, Kurt Prober, renomado numismata brasileiro, destrincha toda a história da “descoberta” dessa suposta botija, (que aparentemente era gigantesca, dado o número de peças disponíveis no mercado), analisa as peças e seus respectivos cunhos, e inclusive aponta quem se beneficia desta fraude.

Recentemente, surgiram moedas de 1 Real com dois reversos, as quais denominaram de «1 Real Bifacial». A estória extravagante da vez é que foram encontradas circulando, nos trocos do comércio. Todas com a mesma data de cunhagem de 2008, mas somente foram encontradas de 2015 em diante. E pasme: Muitos anos circulando de mão e mão, e todas as peças ainda apresentam forte brilho de cunhagem e nenhuma sujeira, marca ou batidinha ou arranhão! Curiosamente, todas indo parar nas mãos do mesmíssimo comerciante, que, curiosamente, manda fabricar álbuns para moedas brasileiras na China.

Não vi, até o presente momento, um ÚNICO colecionador SÉRIO ou uma única ENTIDADE NUMISMÁTICA se pronunciando à respeito dessa peça, de forma a tratá-la como legítimo erro de cunhagem. E acredito que não verei. Ao ser oferecida nas feiras e encontros, todos olham, mas ninguém compra. Pelo contrário, de todos os reconhecidamente sérios, as opiniões são diversas entre cunhagem oficiosa feita por algum funcionário da CMB para auferir lucros exatamente sobre os colecionadores, ou fabricadas na China, ou em algum fundo de quintal utilizando discos sem cunhagem provavelmente originais, mas NENHUM as atesta como legítimas.

Porém, já descobrimos como surgiram, confira CLICANDO AQUI. 

A história se repete, e sempre aparecem comerciantes que, seja por não conter o mínimo estudo sobre numismática (tendo apenas experiência no COMÉRCIO – COMPRA E VENDA – de numismas), seja pela ganância desmedida, irão legitimar tais peças como sendo originais. Foi assim no tempo das “Obsidionais Holandesas” e está sendo assim novamente. Eis que um desses até emitiu um certificado fajuto em seu nome:


Certificado Fajuto não vale NADA!


Pelo próprio “Certificado” aufere-se o pouco – eu diria NULO - conhecimento numismático daquele que o assina. A começar, o certificado diz “com anverso normal e reverso idêntico”. O suposto e alegado “PERITO NUMISMÁTICO” não sabe nem mesmo o básico da numismática, ou seja, o que é um anverso e um reverso de uma moeda. Já explicamos aqui no «Caderno Numismático», o qual repito:

O ANVERSO é o lado principal das moedas. Na maioria das moedas do mundo, consta a cabeça (efígie) do monarca reinante, ou uma efígie iconográfica que simboliza a personificação de um regime republicano. Então segue-se a lógica de que a efígie não pode estar de cabeça pra baixo. Não constando uma efígie, o anverso será onde consta a informação de maior importância, ou seja, o nome do País emissor. O REVERSO será, logicamente, o outro lado, de menor importância.

Na moeda de 1 Real atualmente circulante, há a Efígie da República e o dístico “Brasil” no mesmo lado, sendo este o lado principal da moeda, ou seja, o anverso. Tal informação pode inclusive ser conferida no site do Banco Central.

Portanto, o souvenir em forma de moeda apresentado no tal “certificado” apresenta DOIS REVERSOS.

O “certificado” continua dizendo com “…em posição de 180º em relação ao anverso”. Então o souvenir está com o chamado “reverso invertido”? Oras, as moedas do Plano Real são emitidas com “alinhamento moeda”, onde um lado fica de cabeça-para-baixo em relação ao outro. Logo, se o respectivo souvenir está também nessa posição, então a posição é de 0º. Pra ser 180º o souvenir teria que ter “alinhamento medalha” e ser “reverso invertido”. Também já expliquei sobre os alinhamentos, confira o post «Rotação de Cunho». E “em relação ao anverso”, novamente: A peça apresentada não possui anverso, e sim, DOIS REVERSOS.

O fajuto documento continua: “Sobrepondo as imagens dos dois lados, verifica-se que existem pequenas diferenças nas mesmas, o que caracteriza a utilização de dois cunhos diferentes”. Mais ridículo do que isso, impossível. É óbvio que são dois cunhos. Onde foi visto baterem moedas com um único cunho?? 

Antes de tudo, cabe dizer que fui eu mesmo quem orientei um membro da Sociedade Numismática Brasileira amigo desse comerciante a fotografar a peça em boa resolução e sobrepor as imagens com uma moeda de 1 Real 2008 comum, para comparação dos cunhos. Logo, se eu não tivesse dado essa informação, o tal “PERITO NUMISMÁTICO” que confeccionou esse certificado usando um poderoso instrumento científico denominado “OLHÔMETRO”, sequer teria se dado a esse trabalho. O fiz porque imaginei que com seus 300 anos de experiência no ramo, e sendo antigo diretor da referida entidade, o sujeito teria chegado à mesma conclusão que eu cheguei: Os cunhos simplesmente NÃO BATEM e NÃO SÃO IDÊNTICOS com as variantes de cunho encontradas nas peças de 1 Real 2008 legítimas. Portanto, NÃO PODEM ser originais, cunhados na Casa da Moeda. Mas ficou evidente que o tal ‘’PERITO’’ não sabe o que são ‘’Variantes de Cunho”, como aliás não sabe sequer o básico de numismática, que é a diferença entre ANVERSO e REVERSO. Aí fica difícil.

Com esse episódio, também ficou a descoberto que não há NINGUÉM dentro da Sociedade Numismática Brasileira com conhecimento técnico suficiente sequer pra atestar a originalidade ou não de uma simples peça circulante do Plano Real (o que dirá das moedas raras da numária brasileira, República, Império e Colônia?).

Imagem 1: “Bifacial” de propriedade de colecionador particular. 


Imagem 2: Outra peça “Bifacial”, de propriedade particular de outro colecionador.


Imagem 3: Reverso de moeda de 1 Real 2008 legítima, normal, sem anomalias, circulante no comércio.


Não precisa ter equipamentos caros ou um grande conhecimento numismático para verificar que os traços do grafismo marajoara das moedas “Bifaciais” são diferentes e muito mais finos do que no exemplar original circulante, além de inúmeras outras pequenas diferenças em todo o design. Basta brincar de “jogo dos sete erros” e qualquer um verá as inconsistências.

Isto poderia ser explicado com a existência das “Variantes de Cunho”.

Variantes de Cunho são, grossamente explicando, cunhos novos confeccionados para bater peças de um mesmo design. Nisto, podem ocorrer pequenas alterações ou correções – propositais ou não – no design das peças. Os cunhos vão batendo as moedas até se desgastarem ou quebrarem, e como a tiragem da produção ainda não foi finalizada, forjam-se novos cunhos, e aí podem haver mínimas diferenças com relação ao cunho anterior. Isto é algo corriqueiro na numismática, em todas as moedas de todos os países e épocas existem as Variantes de Cunho. Um caso recente e bastante notável é o da moeda 5 Centavos 2007, cujo anverso possui 13 linhas paralelas, e uma variante de cunho nova, surgida depois, com 12 linhas:

Imagem: Boletim #37 da Sociedade Numismática Paranaense.
Moeda de 5 Centavos 2007, que existe com duas variantes de cunho, com 13 traços e com 12 traços.
As variantes de cunho ocorrem em quase todas as moedas circulantes do Plano Real,
(mais raramente nas comemorativas) 
e até mesmo dos outros sistemas monetários.


No entanto, até hoje, mesmo analisando milhares de moedas de 1 Real 2008 circulantes no comércio, as quais temos TODAS fotografadas, NUNCA encontramos essa variante de  cunho com os traços do grafismo marajoara mais finos tal como apresentados nas “bifaciais”. Trata-se de uma “exclusividade” das mesmas. Esse fato por si só impede a possibilidade de algum funcionário ter – por engano - inserido 2 cunhos de reverso na máquina de cunhagem, e abre a possibilidade dessa cunhagem ter sido feita FORA do ambiente da Casa da Moeda, utilizando discos originais em branco (pois o peso e diâmetro das peças confere com as originais).

Só isso já basta pra darmos esse souvenir como FALSO, taxarmos esse certificado como FAJUTO e inclusive acionarmos a Polícia Federal para que investigue esse derrame de moedas circulantes falsificadas no mercado, com seus cúmplices dando certificados de autenticidade. Sei inclusive quem é o vendedor dessas aberrações. Mas ainda há muitos outros aspectos que deixam evidente que tal peça com dois reversos simplesmente não pode existir “por engano” ou por “erro de cunhagem”: Os cunhos de anverso e reverso das máquinas de cunhagem da Casa da Moeda possuem encaixes diferentes, não só porque um cunho é “fixo” enquanto o outro é o “martelo”, que bate no disco, mas JUSTAMENTE como medida de segurança pra impedir que sejam inseridos dois cunhos idênticos na máquina. E isto sempre foi assim, e não “desde 2012 as coisas mudaram, por causa do erro ‘mule’ da moeda 50 centavos sem o zero”, tal como um boato que espalhou-se pela internet, com o único intuito de tentar legitimar tais peças com dois reversos.

Ilustração publicada por «Bentes Auctions» ( https://www.instagram.com/bentes_auctions/ ) explicando de forma ilustrada que os cunhos de anverso e reverso possuem encaixes diferentes, o que por si só impossibilita que moedas BIFACIAIS com o mesmo anverso ou o mesmo reverso sejam produzidas dentro de um ambiente de Casa da Moeda. 


Há ainda muitos outros detalhes nessas “bifaciais” que diferem radicalmente das moedas originais circulantes de 1 Real 2008, e não só no design, porém deixarei para explicá-las em uma publicação que sairá do prelo em breve. Mas perceba de antemão que o design todo é MENOR do que nas moedas originais, ao ponto de não cobrir a totalidade do disco!

Enfim, isto mostra apenas que sempre existiram e sempre existirão tais tipos de comerciantes espertalhões de MÁ-FÉ, gananciosos, que sempre tentarão empurrar o mero lixo como raras numismas aos colecionadores. Aliás, esse mesmo comerciante já é bem conhecido no meio, por vender moedas limpadas como sendo “flor de cunho”, e cédulas dobradas e furadas como “flor de estampa”. Temos quase 2 dúzias de testemunhos de diferentes compradores que se deram mal com o mesmo. Agora, temos até um “certificado” fajuto.

Também fica evidente que aqueles que se dispõem a colecionar moedas anômalas, simplesmente não possuem o mínimo conhecimento técnico, que é adquirido através de ESTUDOS, que expliquem as causas das anomalias que eles mesmos tem em suas coleções! Essas pessoas não são numismatas, são meros juntadores de moedas anômalas ou fora do padrão. Em poucos anos terão desanimado e se evaporado do mundo da numismática, vendendo suas coleções a 1/10 do valor pago.

Existe o velho ditado: Nesse mundo existe gente tão pobre, que o único que tem é dinheiro. Este é o caso.

Resta agora tratar de outro assunto: As FALSIFICAÇÕES CHINESAS, que estão abundantes no mercado numismático nacional, inclusive com colecionadores de suposto e alegado “renome” as comercializando. Outro dia me deparei com este anúncio no Mercado Livre:

A peça original vem com estojo, certificado, e é em Prata, e não “folheada” a ouro dourado e com uma cunhagem de tão baixa qualidade.

Mas pasme, 1.522 pequenos padawans compraram essa coisa, SÓ DESSE VENDEDOR, sem contar as dezenas de vendedores que há dessa peça, só no Mercado Livre. Agora faça as contas: R$ 23,90 x 1.522 = R$ 36.375, só com esse único souvenir, valor mais do que suficiente pra adquirir uma boa moeda 20.000 Réis de Ouro da Casa da Moeda de Vila Rica. Eu fiquei pensando: Não tenho isso investido na minha coleção numismática. Nem perto disso.

O que pretendo aqui é mencionar o seguinte: Na época das “Obsidionais da Botija”, alguns numismatas de peso como Kurt Prober e outros botaram a “boca no trombone” e denunciaram essas peças como sendo FALSAS, inclusive publicando livros sobre o assunto. Hoje o mesmo ocorre com as “Bifaciais”, e com as “Falsificações Chinesas”, mas… Não temos mais o Kurt Prober e outros para denunciar esse mercado criminoso. Apenas os avisos boca-a-boca de sempre.

Mesmo sendo alertados, alguns colecionadores inacreditavelmente ainda continuam adquirindo essas coisas, e fomentando esse mercado, que repito, é CRIMINOSO. Um desses cretinos, proprietário de uma das “bifaciais”, inclusive teve a capacidade de adquirir OUTRA peça, mesmo com todos os alertas e a calorosa discussão acerca da legitimidade das mesmas. Tudo para “ganhar likes” no facebook, e encher o ego. Que vidinha miserável tal sujeito deve possuir!

Mas, eu não tenho nada com isso, certo? Então, assim sendo… Eu é que não vou mais perder o meu tempo dando uma de “Paladino da Justiça” como Kurt Prober fez no passado. Sinceramente, quero que se danem. Cada um que sabe de si. Colecionismo, ainda mais a numismática, é, antes de mais nada, ESTUDO. Se o colecionador não se dispõe a estudar, e mesmo sendo avisados por gente idônea e experiente de que determinada peça possui procedência duvidosa, ainda se dispõem a pagar caro nessas coisas, então tem mais é que se ferrarem mesmo. O dinheiro é deles, e são eles quem vão deixar pirataria chinesa e falsificações baratas a seus herdeiros, e não eu. Querem comprar bifaciais, então que comprem às dúzias. Querem falsas chinesas, comprem-nas aos kilos. Eu não ligo a mínima, estou me lixando. Façam rifas delas, se quiserem. Como colecionador, faço a minha parte com este blog e aponto que isto NÃO É numismática. Mas não irei recriminar mais os vendedores dessas coisas. Cada um com seu cada um. Cada cabeça, uma sentença. Cada um, que busque se instruir da melhor forma possível, e quem não investe nisso, corre o risco de rasgar dinheiro adquirindo o lixo chinês pra coleção.

Na MINHA coleção particular, essas coisas simplesmente não entram, nem mesmo como curiosidades, nem se vierem de graça. Faço o possível para me tornar um especialista nas moedas que coleciono, pois assim dificilmente serei enganado. No caso de moedas mais caras, eu não compro antes de estudar cada mínimo detalhe, pra ter a certeza de estar comprando uma peça ORIGINAL. O conselho que dou é que façam o mesmo: Tornem-se ESPECIALISTAS naquilo que colecionam, estudem, pesquisem e leiam ao máximo sobre os objetos de suas coleções.

19 abril 2018

Cédulas de Zero Euro em homenagem ao maior vigarista da História da Humanidade

Em comemoração ao Bicentenário do nascimento do psicopata judeo-alemão Karl Marx, foram postas à venda na cidade de Trier, Alemanha, cédulas de valor facial de Zero Euro em homenagem ao maior vigarista que a humanidade já conheceu. Entretanto, apesar desta sinistra figura ser o pai da nefasta teoria do comunismo, as cédulas não serão socializadas com os colecionadores, e sim, vendidas, por € 3 cada. Aqui no Brasil devem custar uns R$ 30 ou mais com os comerciantes.

Não é a primeira vez que este sujeito demoníaco aparece em cédulas emitidas na Alemanha. O antigo e falido Estado comunista denominado República “Democrática” Alemã, DDR, ou Alemanha Oriental, também havia emitido nos anos 1970’s cédulas de 100 Marcos Alemães Orientais com a efígie desse pilantra.

Para aqueles que não conhecem as cédulas de Zero Euro: A cédula é emitida pelo Banco Central Europeu, em papel-moeda verdadeiro, tal como as cédulas de Euro circulantes, porém esta é destinada somente para coleção, vendida como souvenir, já que não se pode comprar nada com 0 euro. Não é a primeira vez que foi emitida. Abaixo segue outro exemplo, emitido em 2017.

Nota do Blogueiro: A homenagem a Karl Marx em uma cédula no valor facial de Zero Euro não poderia representá-lo melhor, afinal este personagem sempre foi um Zero na vida: De sustentado pela mulher, à falácia do comunismo. Um grande mentiroso, sem moral,  violento, ladrão, desumano, vagabundo (nunca trabalhou), cínico, psicopata, racista e escravagista, frequentador de cabarés, que traía e espancava a própria esposa cotidianamente, e por fim roubou-lhe todo o seu dinheiro (violência patrimonial), e cujas teorias políticas idiotas, refutadas veementemente ainda em sua vida, só trouxeram morte, genocídio, miséria e desgraças à população em todos os lugares por onde foi implantada. Karl Marx foi um verme em todos os sentidos. Com justiça, a cédula tem o Zero justamente à esquerda em seu reverso.

A propósito, existe algo tão nonsense e imbecil do que ser comunista e numismata ao mesmo tempo? Em países que adotaram o socialismo/comunismo, a numismática e a filatelia eram produzidas com fins de exportação, somente. Aos cidadãos locais, era proibido armazenar selos, cédulas ou moedas com fins de coleção, não importando de que época ou país fossem. Essa, aliás, era uma proibição raramente violada, já que, vivendo no comunismo, as pessoas estavam mais preocupadas em matar a onipresente fome, do que em colecionar qualquer coisa que seja.

10 janeiro 2018

Novamente, Anomalias vs. Variantes…

Parece inacreditável ter que voltar a falar sobre esse assunto tão BÁSICO, do bê a bá da numismática, mas, ainda existem, infelizmente, alguns colecionadores bobalhões que “não aceitam” o fato, reconhecido mundialmente por todas as Sociedades Numismáticas SÉRIAS, de que VARIANTES sejam alterações intencionais no design das moedas, e que ANOMALIAS sejam erros de produção.

Motivo: Porque um comerciante numismático de Curitiba-PR, completamente leigo no assunto e mais perdido do que cego em tiroteio, lançou uma “obra” física, em papel, na qual nomeia erros de produção corriqueiros como “variantes”, e qualquer coisa que ele desconheça como “variante”. E pior, ainda lhes dá cotações surreais.

É até compreensível que tenham dúvidas a respeito, já que não há NENHUMA publicação a respeito de um tema tão simples, corriqueiro e fundamental na numismática, que esteja publicado ou disponível em língua portuguesa. As Sociedades Numismáticas no Brasil servem apenas como clube de venda de moedas, quase nada sobre conhecimento é publicado.

De fato, o material sobre o assunto está 100% publicado no estrangeiro.

Compreensível a ignorância, porém de forma alguma é perdoável.  Apesar das publicações sobre esse assunto estarem em livros físicos em papel, em língua estrangeira, os quais dificilmente são acessados pelos numismatas brasileiros – até mesmo pelo valor dos mesmos, e por mero desconhecimento da existência -, há muito material sobre este assunto BÁSICO da numismática disponível GRATUITAMENTE na internet. Basta pesquisar! (Embora eu duvide que saibam fazer isso, pois esses JUMENTOS são analfabetos funcionais).

Então vamos ajudar estas pessoas a pararem de passar vergonha na internet. Seguem algumas referências que encontrei com 2 minutos de pesquisa no Google, em sites sérios sobre numismática:


1) Site da NGC
https://www.ngccoin.com/news/article/1655/Variety-versus-Mint-Error/

Variety
A variety is a coin that differs from its basic design type in some distinctive way and is thus differentiated by collectors.

Uma variante é uma moeda que difere de seu tipo básico de design de alguma forma distinta, e portanto, é diferenciada pelos colecionadores.

Mint Error
Coins with major mint errors as a result of human or mechanical error during manufacturing.

Moedas com erros de produção como resultado de erros humanos ou mecânicos durante a fabricação.


2) Site da PCGS:
https://www.pcgs.com/news/mint-error-or-die-variety?utm_source=email&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsletter-pcgs-2016may03-archive

An error is a mechanical (machine) malfunction of some sort. Meaning, the machine itself jumped, bumped, slipped, turned, tilted, vibrated, or one of probably a hundred things that could go wrong during the striking process. Each malfunction that causes an error is unique, and, with a little research and understanding, is recognizable. Some may be very similar, but a striking error is always technically unique to the strike, which makes every error unique. Some examples of errors are: Off-centers, Rotated Dies, Struck Throughs, And Double Struck Coins.
Uma anomalia é um mal funcionamento mecânico (máquina) de algum tipo. O que significa que a própria máquina saltou, chutou, escorregou, virou, inclinou, vibrou, ou uma das provavelmente centenas de coisas que poderiam dar errado durante o processo de cunhagem. Cada mal funcionamento que causa um erro é único, e com um pouco de pesquisa e compreensão, é reconhecível. Alguns podem ser muito semelhantes, mas um erro impressionante é sempre tecnicamente exclusivo da cunhagem, o que torna todos os erros únicos. Alguns exemplos de anomalias são: Cunhagens descentradas, rotação de cunho, cunho gasto, e batidas duplas.


The opposite is what makes a die variety. This is when the actual die has some kind of unique characteristic that is repeated exactly, or progressively, among multiple coin strikings. Just about every series has its own unique traceable die varieties. Some die variety examples are: Re-engravings, Over Polishings, Repunched Mint Marks/Dates, And Die Cracks.
O oposto é uma variante de cunho. Isto é, quando o cunho atual possui algum tipo de característica única que é repetida exaustivamente, ou progressivamente, entre várias cunhagens de moedas. Alguns exemplos de variantes são regravações, sobreposições, marcas/datas remanescentes e rachaduras. (Nota do blogueiro: tal como os nossos 960 Réis).


3) Site do Lincoln Cent Resource, a maior referência dos colecionadores de Lincoln Cent:

http://www.lincolncentresource.com/FAQ/errors_vs_varieties.html

Varieties are intentional and unintentional changes to dies before coins are struck
Variantes são modificações intencionais e involuntárias no cunho efetuadas antes da cunhagem.


Errors are unintentional mistakes or abnormalities made during striking.   
Anomalias são erros não intencionais ou anormalidades ocasionadas durante a cunhagem.


4) Portal do Numismata Ken Potter, uma mais maiores autoridades no assunto, no mundo, com 50 anos de estudos numismáticos. ATENÇÃO: 50 anos de ESTUDOS no ramo, não de mero COMÉRCIO, que qualquer bobalhão analfabeto é capaz de fazer. O sr. Ken Potter dá PALESTRAS sobre o assunto “Anomalias e Variantes” nas Sociedades Numismáticas dos Estados Unidos, como se pode conferir em seu website. Ele é co-autor do “Guia Cherrypickers de Erros e Variantes”, uma das melhores obras sobre o assunto. É autor do prefácio da obra “The Official Price Guide to Mint Errors”, de Alan Herbert. Tem seus próprios livros sobre o assunto publicados. É membro do CONECA, (The Combined Organizations of Numismatic Error Collectors of America), a maior associação numismática de colecionadores de anomalias em moedas, do mundo. Possui inclusive um serviço de expertização de erros e variantes. Melhor do que postar a definição de anomalias e variantes, é ler o site todo, pois é uma verdadeira aula:

http://koinpro.tripod.com/
http://koinpro.tripod.com/Ken_Potter_Bio_Page.htm


Dá pra ficar o dia todo aqui postando referências GRATUITAS da internet sobre a diferença entre ANOMALIAS (erros de produção) e VARIANTES DE CUNHO (alterações propositais no design), redigidas por numismatas experientes no ramo, reconhecidos e acreditados por suas Sociedades Numismáticas. Palavra-chave para pesquisa: “Errors and Varieties Coins”. 

Agora, se preferem fazer birra e pirraça e acreditar no que um mero comerciante escreveu numa “obra” feita nas coxas, no sul do Brasil, não posso fazer mais nada. Como já dizia o dissidente soviético Yuri Bezmenov:

«Uma pessoa que está desmoralizada não é mais capaz de acessar informação verdadeira. O fato não diz nada para ela. Mesmo quando confrontada com informações de grandes evidências e provas fundamentais como documentos e fotos… elas irão se recusar a crer nisso, até que levem um chute no traseiro».

Sem mais no momento (eu espero…).

09 janeiro 2018

Rotação de Cunho

Primeiro, vamos determinar o que é ANVERSO e o que é REVERSO nas moedas.

O ANVERSO é o lado principal das moedas. Na maioria das moedas do mundo, consta a cabeça (efígie) do monarca reinante, ou uma efígie iconográfica que simboliza a personificação de um regime republicano. Então segue-se a lógica de que a efígie não pode estar de cabeça pra baixo. Não constando uma efígie, o anverso será onde consta a informação de maior importância, ou seja, o nome do País emissor. O REVERSO será, logicamente, o outro lado, de menor importância.

Uma das características de todas as moedas é a sua ORIENTAÇÃO ou ALINHAMENTO, cujo design do anverso possui sentido inverso ou alinhado de maneira específica em relação ao reverso. Basicamente existem duas opções:

ORIENTAÇÃO MEDALHA: O nome deriva da orientação das medalhas de uniforme militar. O reverso está alinhado a 0º em relação ao anverso, de forma que compartilham a mesma posição ao girar a moeda em seu eixo vertical. A maioria das moedas antigas do Brasil são cunhadas com esta orientação.

ORIENTAÇÃO MOEDA: É a situação oposta. O reverso está alinhado a 180º em relação ao anverso, de forma que fica “de cabeça pra baixo” ao ser girada a moeda em seu eixo vertical. As moedas atuais do Brasil (Plano Real) são cunhadas com essa orientação.

 

Por erro de produção, pode acontecer de algum dos lados da moeda estar orientado em posições diferentes, em diversos graus de inclinação, e a isto denomina-se, mundialmente, por todas as sociedades numismáticas SÉRIAS, de anomalia de ROTAÇÃO DE CUNHO, comumente chamado no Brasil, por leigos, de “Reverso Invertido”, “Reverso Inclinado”, inclusive em catálogos e publicações que doravante pretendem apresentar seriedade.

Somente para este assunto, ROTAÇÃO DE CUNHO, poderia-se escrever um livro inteiro. Há muito mais a ser dito e explicado, há de se detalhar quais falhas ocorrem durante a cunhagem que causam a rotação dos cunhos, ilustrá-las, e este texto é apenas um pequeno esboço, somente pros amigos terem uma idéia de como as coisas realmente funcionam, e cuja nomenclatura aqui no Brasil foi simplesmente INVENTADA pela cabeça de comerciantes brasileiros que, não compreendendo suas causas, passaram a nomear de cabeça própria aquilo que observavam, às vezes com nomes esdrúxulos, e que é perpetuada até hoje, por pura ignorância, por catálogos, inclusive por aqueles que se dispõem a “revisar cada detalhe”, como o Bentes.

Ou seja, nossos nobres amigos editores numismáticos, (inclusive o Bentes), estão catalogando erros tais como rotação de cunho e até mesmo cunho marcado em seus catálogos, que são duas anomalias relativamente insignificantes. Ou se cataloga as realmente importantes, como as “mules” ou “híbridas”, ou não se cataloga nenhuma. Na verdade, o ideal seria não catalogar as anomalias, e sim as VARIANTES DE CUNHO. Quanto às anomalias, ou podem ser catalogadas em uma obra à parte, ou como meras variedades da peça, tal como fazem os editores filatélicos.

Mas… Qual o correto? Reverso invertido/inclinado ou será que é Anverso invertido/inclinado?

Resposta: Ambos estão errados!

Não é o reverso ou o anverso do disco da moeda que girou durante a cunhagem, e sim o cunho. (Afinal, isto é óbvio, o disco da moeda vai girar como, se está sendo prensado por dois cunhos exercendo dezenas de toneladas de pressão?).

A anomalia de ROTAÇÃO DE CUNHO pode ocorrer de duas formas: Na primeira, erro humano, (proposital ou não) com a instalação, na máquina de cunhagem, de um dos cunhos em posição invertida (e aí teremos moedas com exatamente 180º de rotação), e são as que chamamos erroneamente no Brasil de “reverso invertido”, e na segunda, uma falha de produção sem intervenção humana no qual ocorre de um dos cunhos (quase sempre o cunho móvel) começar a ficar frouxo na máquina de cunhagem, após muitas milhares de batidas em moedas. E aí começam a aparecer moedas cada vez mais inclinadas, em vários graus. São as que chamamos “reverso inclinado”, “reverso horizontal”, dentre outros nomes.

Por isso, mais correto é o termo “Rotação de Cunho”, pois, apesar de quase sempre o cunho móvel ser o responsável pela rotação, em alguns casos o cunho fixo também pode girar. Nas atuais moedas brasileiras de 1 Real, sabemos que a face com a Efígie da República (anverso) é o cunho móvel (martelo), então podemos associar na maioria das vezes que é este o cunho que rotaciona em seu eixo, (daí teríamos o “ANVERSO invertido/inclinado”), mas em alguns casos é o cunho fixo, com o valor facial, que irá rotacionar.

Como não podemos determinar para cada moeda cunhada no mundo qual era seu cunho fixo e qual era o móvel, e muito menos qual deles rotacionou em seu próprio eixo, e sabendo que existem máquinas onde ambos os cunhos são móveis, e também que existem outras formas de cunhagem (à balancim, manual, à martelo, à vapor, etc), então é dispendioso (e até impossível) determinar qual dos cunhos foi rotacionado. Pode inclusive ter sido ambos ao mesmo tempo!  Assim sendo, na hora da catalogação, não importará muito qual lado seja registrado como inclinado em relação ao outro.

As empresas certificadoras de moedas, tais como PCGS e NGC encapsulam e identificam moedas comuns com a anomalia “ROTADED-DIES” ou “MEDALLIC ALIGNMENT” (vide imagens abaixo), porém, faz-se mister observar que esta é uma anomalia de baixo nível, ou seja, extremamente comum, fácil de conseguir nos trocos, encontrável nos “kilowares”, fácil de conseguir com os comerciantes, e que agrega pouco valor às coleções. Na verdade, é mais como que uma curiosidade, e como dissemos acima, sequer deveria constar em catálogos. É assim que funciona nos grandes centros numismáticos mundiais.

Portanto, dizer “invertido”, “horizontal à direita” ou “horizontal à esquerda” também está equivocado, e inclusive confunde a muitos! Tornam complicado aquilo que é fácil e óbvio. O correto é indicar quantos graus há de inclinação. A 180º temos o que se chama erroneamente de “reverso invertido”. Números diferentes disto, são os “reversos inclinados”, “horizontais”, e outros nomes que inventam por aí.

Numismatas sérios de todo o mundo consideram como “colecionáveis” (peças boas) aquelas que possuem mais de 30º de inclinação.

Pra determinar exatamente o grau de rotação de uma moeda “inclinada” ou “horizontal”, use um simples Transferidor de Ângulos em Graus, destes facilmente encontráveis em papelarias.

Para utilizar o Transferidor, toma-se um dos lados como base (por mera convenção o reverso, por este lado ser geralmente o cunho fixo), e verifica-se quantos graus há de deslocamento no ANVERSO (cunho móvel). Simples, porém eficaz. No envelope da moeda, ou holder, anota-se "Rotação de Cunho em XXº". (sendo “XXº” o número de graus alcançado pelo Transferidor).

Quanto a valores de mercado das peças, desenhei (amadoramente, mas compreensível) a seguinte ilustração abaixo.

Representado em VERMELHO: Entre 330º e 359º, e 1º a 30º, as peças não são consideradas como Rotação de Cunho, e sim um mero desalinhamento comum, e não devem ser consideradas para coleção (Possuem Rotação de Cunho abaixo de 30º).

Representado em AMARELO: Entre 31º e 169º, e 191º e 329º, (exceto 90º e 270º) são as peças de Rotação de Cunho comuns e de segunda escolha pra uma coleção séria (são as que chamam genericamente de “reverso inclinado”).

Representado em AZUL: Entre 170º e 190º, e também 90º e 270º: São as melhores e mais valiosas peças de Rotação de Cunho (são as que chamam genericamente de “reverso invertido”, e “reverso horizontal à direita/esquerda”).

Simplificando: Procure as peças AZUIS pra coleção. Leve sempre em consideração também o Estado de Conservação.


Como mensurar os graus:

Pra facilitar, coloque a moeda em um envelope plástico transparente, ou coin holder, de forma que um dos lados (anverso ou reverso, não importa) esteja perfeitamente alinhado a 0º em seu eixo horizontal, conforme a imagem abaixo. Faça um traço perfeitamente horizontal no envelope ou holder indicando a medida de 0º.

Feito isso, em seguida, vire cuidadosamente a moeda em seu eixo vertical (de forma que o lado pra baixo continue alinhado a 0º), tome o Transferidor de`Ângulos em Graus, coloque a peça em seu centro, e, com o auxílio de uma régua, determine quantos graus há de inclinação com relação ao outro lado da moeda. Ilustro abaixo alguns exemplos:

Moeda com Rotação de Cunho à 10º.
Peça VERMELHA. Abaixo dos 30º, é considerado como um mero desalinhamento corriqueiro,
e não deve ser considerado para a coleção. Descarte.

Moeda com Rotação de Cunho à 30º.
Peça AMARELA. A partir deste grau de rotação, a peça passa a ser colecionável.

 

Moeda com Rotação de Cunho à 90º.
Peça AZUL. Esta é a que chamam equivocadamente de “reverso horizontal à direita”. 

Moeda com Rotação de Cunho à 120º.
Peça AMARELA.

Moeda com Rotação de Cunho à 180º.
Peça AZUL. Esta é a que denominam equivocadamente de “Reverso Invertido”.

 

Moeda com Rotação de Cunho à 220º.
Peça AMARELA.

 

Moeda com Rotação de Cunho à 270º.
Peça AZUL. Esta é a que chamam equivocadamente de “reverso horizontal à Esquerda”

  

Moeda com Rotação de Cunho à 330º.
Peça AMARELA. O último grau colecionável. Acima disso, de 331º a 360º, deve ser descartado (inclinação menor que 30º em relação ao alinhamento-padrão de 0º).

 

Espero que este pequeno artigo tenha sido redigido de forma a que todos compreendam de forma definitiva quais são as peças colecionáveis da anomalia ROTAÇÃO DE CUNHO. Em caso de dúvidas, a caixa de comentários está logo aí abaixo, não hesite em perguntar.

 

Atualização em 24 Junho ‘2020:

Este artigo foi reproduzido no site «Numismática Castro» em 9 Janeiro ‘2018.
Link: https://numismaticos.com.br/rotacao-de-cunho/


Atualização em 26 Julho ‘2026:

Após a publicação deste artigo, surgiram dois novos produtos no mercado numismático nacional. Não sei dizer se este meu artigo especificamente foi o responsável direto pelo surgimento destes produtos. Se for o caso, fico muito feliz em saber que o artigo foi muito útil. São eles:

1) Coin holder angular, autoadesivos, com a marcação dos 360º.:


2) Medidor angular para moedas, feito em acrílico transparente, e com um prendedor que segura a moeda na hora de medir o ângulo de inclinação. Ferramenta indispensável, ao meu ver. Muito melhor do que usar o transferidor de ângulos em graus comum de papelaria, e já encontrei em dois modelos diferentes:



02 dezembro 2017

«Batida Dupla»… só que não!

Antes de mais nada, leia o post anterior, «O Processo de Fabricação de Moedas». Aquele post é importante e foi criado para que seja plenamente compreendido o que será dito nesta postagem. Se você já leu, releia.

Existe uma grande confusão entre os numismatas brasileiros e inclusive entre os comerciantes, mesmo os de renome e com muitos anos de experiência no COMÉRCIO numismático  (e nem sempre nos ESTUDOS numismáticos…), acerca de determinadas anomalias que ocorrem nas moedas brasileiras (e também mundiais), as quais por aqui denominam todas genericamente pelo nome «Batida Dupla».

Algumas se tornaram catalogadas e aparecem nas obras de J. Vinicius, Arnaldo Russo e Carmelito Gomes, e às vezes com cotações altas. Outras, ganharam até mesmo apelidos próprios, como «Mapa Duplo», «Brasil Duplo», etc., porém nenhuma das obras explica o que são essas anomalias e muito menos as suas causas, apenas descrevem o que veem, e inventam apelidos. Pior, tampouco as diferenciam, já que NÃO SÃO todas a mesma coisa, e TODAS as obras escritas até o presente momento, em português, erram em denominá-las como batidas duplas. Simplesmente se limitam a dar cotações, mas como podem cotar o valor daquilo que desconhecem as causas e a sua real importância?

Então passemos a esclarecê-las. Na verdade, estamos lidando com três anomalias diferentes, denominadas «Batida Dupla», «Matriz de Cunho Duplicada» e «Duplicação de Máquina».

A primeira, «Batida Dupla», é bastante óbvia. Porém, estas duas últimas requerem uma explicação bastante detalhada, pois à simples vista, para o numismata desinformado, parecem ser a mesma coisa, porém possuem causas totalmente diferentes. Assim sendo, passo agora a descrever da forma mais cuidadosa possível para que sua identificação seja inequívoca.

 

BATIDA DUPLA (Double Strike): É bastante óbvia à simples e primeira vista. Durante o processo normal de cunhagem, um disco em branco é atingido uma vez pelos cunhos de anverso e reverso, e em seguida a moeda é ejetada. Se uma moeda não for ejetada corretamente, será atingida novamente pelos cunhos. As moedas podem ser inclusive atingidas várias vezes, ocorrendo batidas triplas, quádruplas, etc. (e receberão estes nomes, conforme o número de batidas) e em diversos ângulos distintos daqueles da primeira batida. As batidas duplas podem ocorrer totalmente dentro do disco, ou atingindo somente uma parte do disco, mas SEMPRE em ambos os lados das moedas, anverso e reverso. Todos os elementos do design do cunho são visíveis.

As Batidas Duplas são sempre anomalias importantes, do tipo que chama a atenção ao primeiro olhar, e por isso são muito procuradas e costumam atingir bons preços de mercado, em moedas de todo o mundo. Na numária brasileira, não costuma aparecer com grande frequência. Faz parte dos melhores tipos de anomalias dos quais se pode recolher para a coleção. É preferível aquelas peças que apresentem a data visível.

Seguem exemplos abaixo em moedas brasileiras.

Imagem: Leilão Miguel Salles

Imagem: Coleção Wagner Lambertuci, que a apelidou graciosamente de «505 Centavos»

Imagem: Coleção Luan Catellan

Imagem: Coleção Luan Catellan

Um esclarecimento: Como poderás perceber, a moeda desta última imagem possui a segunda batida totalmente invertida em relação à primeira. O ângulo das batidas subsequentes nesta anomalia é irrelevante e não influi em nada, já que é causado por simples sorte e acaso, no saltar parcial da moeda de dentro da virola.

 

MATRIZ DE CUNHO DUPLICADA (Doubled Die, Hub Doubled): Ocorre durante o processo de fabricação dos cunhos, e não durante a cunhagem das moedas.

A Matriz de Cunho Duplicada ocorre durante o processo de criação do cunho macho (mestre) pelo Pantógrafo, máquina que reduz o design a partir de uma matriz de Gesso para um cilindro de aço do tamanho exato da moeda que será cunhada, produzindo assim o cunho macho (mestre). Falamos sobre o Pantógrafo no post anterior.

O erro ocorre quando o Pantógrafo esculpe elementos duplicados no cunho macho (mestre).

Por consequência, os elementos duplicados do design se encontram deslocados, porém todos se veem de alguma forma simétricos e/ou alinhados com relação ao elemento original. Além disso, os elementos duplicados possuem a mesma “altura” do relevo do elemento normal.

Como resultado, todos os cunhos fêmea (que irão cunhar as moedas) produzidos por este cunho macho (mestre) defeituoso, serão igualmente produzidos com elementos do design duplicados em negativo, e a duplicação aparecerá em positivo em todas as moedas produzidas por esses cunhos defeituosos.

No passado, os erros de Matriz de Cunho Duplicada eram muito mais dramáticos devido ao processo de fabricação dos cunhos serem realizados por um Pantógrafo mais rudimentar. Embora a utilização moderna de computadores no processo de design e fabricação das Casas da Moeda tenham reduzido muito o número de erros e anomalias de cunhos, a possibilidade sempre irá existir.

É muito raro que uma duplicação nos elementos de design de um cunho macho (mestre) passem desapercebidos nas Casas da Moeda de todo o mundo. Mas, ao que nos parece, atualmente, na Casa da Moeda do Brasil tal controle de qualidade não é tão eficiente quanto pensamos que deveria ser, haja vista a enorme quantidade de moedas com Matriz de Cunho Duplicados encontrados, de diversos anos e denominações, ou simplesmente fazem a vista grossa quando detectados.

Tais moedas não deveriam existir, nem mesmo seus cunhos defeituosos com elementos duplicados deveriam existir. Há uma cadeia de várias pessoas, desde o operador do Pantógrafo, passando pelo funcionário responsável pela criação dos cunhos-fêmea a partir do cunho macho, passando pelos funcionários responsáveis na inserção dos cunhos fêmea de anverso e reverso nas máquinas, até o pessoal do controle de qualidade, que poderiam ter percebido o defeito no design do cunho macho, dos cunhos fêmea, e até nas moedas já cunhadas. Por isto mesmo, são anomalias importantes, e sempre possuem uma boa valorização.

Seguem agora exemplos dessa anomalia em moedas americanas e brasileiras.

Primeiro, a «Matriz de Cunho Duplicado» mais famosa dos Estados Unidos, a «1955 Doubled Die Obverse Lincoln Cent»:

A história desta anomalia americana é bem conhecida. À época, a Philadelphia Mint, a Casa da Moeda da Filadélfia, estava executando dois turnos de 12 horas cada, pra ajudar a aliviar a falta de moedas de 1 Cent. Pelo menos sete pessoas deveriam ter inspecionado o cunho macho (mestre) antes do mesmo ter sido utilizado para produção dos cunhos fêmea que cunhariam as moedas, mas isto claramente não ocorreu. Em vez disso, os cunhos fêmea foram postos em serviço entre 0h e 8h da manhã. O problema não foi descoberto até que cerca de 20.000 a 24.000 centavos já haviam sido cunhados e misturados com milhões de centavos cunhados naquela noite. O Chefe da Philadelphia Mint, Sydney C. Engel, decidiu deixar passar as moedas, ao invés de ter que derreter cerca de 10 milhões de centavos para contê-las.

Na numismática brasileira, ocorrem ainda, anomalias de Matriz de Cunho Duplicado nas atuais moedas circulantes do Plano Real 2ª Família, em diversas datas e denominações:

5 Centavos 2005 “Brasil Duplo”: Descoberta e fotografada pelo numismata Tiago Minosso

Tenho conhecimento das seguintes denominações e datas em meu banco de dados:

R$ 0,01: 2000
R$ 0,05: 2002, 2005 (“Brasil” em duplicidade, bastante deslocado, imagem logo acima)
R$ 0,10: 1998, 2000, 2001, 2008
R$ 0,25: 2001 (existem duas, uma no anverso e outra no reverso)
R$ 0,50: 1998
R$ 1,00: Nenhuma peça conhecida

(Solicito a gentileza de me informarem sobre novas datas, com imagens em alta resolução, pra que a tabela acima seja sempre atualizada).

 

DUPLICAÇÃO DE MÁQUINA (Machine Doubling, Mechanical Doubling, Shift Doubling, Strike Doubling): Embora a princípio seja, à primeira vista, e com olhos destreinados, idêntico à Matriz de Cunho Duplicado, as causas e o resultado são diferentes: Os cunhos não estão defeituosos, e sim, o erro ocorre durante o processo de cunhagem.

Essa anomalia ocorre quando peças mecânicas (principalmente os cunhos) que estão frouxas, mal apertadas ou soltas na máquina de cunhagem causam um golpe mais fraco do que o normal dos cunhos sobre as moedas, fazendo com que determinados elementos saiam trêmulos e/ou duplicados. Porém, não há duplicação de elementos no cunho, apenas nas moedas cunhadas.

Como bem disse o amigo numismata Warley Soares, que, graciosamente (e acertadamente!) disse, “é um problema na rebimboca da parafuseta”.

Por consequência, os elementos duplicados do design se encontram deslocados, porém todos se veem assimétricos e/ou desalinhados. Além disso, os elementos duplicados NÃO possuem a mesma “altura” do relevo do elemento normal, sendo mais baixo (intermediário entre a altura do design do elemento, e o campo da moeda). Se o cunho não estiver encaixado corretamente na máquina de cunhagem, ele pode mover-se ligeiramente ou saltar durante a cunhagem, criando as duplicações. O efeito será ligeiramente diferente ao longo do tempo, e muitas variedades (e não variantes…) poderão ser encontradas.

Esta não é uma anomalia importante, não possui valor de mercado significativo em nenhum lugar do mundo, (exceto pelo câncer da especulação, causado pela ganância financeira e desconhecimento de causa de alguns comerciantes) e deve ser inserida na coleção como UMA MERA CURIOSIDADE.

Na numária brasileira temos vários exemplos, sendo que a mais famosa «Duplicação de Máquina» brasileira é a moeda «1 Cruzeiro 1949» à qual apelidam (erroneamente) de «Mapa Duplo».

Reverso da moeda «1 Cruzeiro 1949» a qual chamam de «Mapa Duplo».
Cortesia da Imagem: Gilberto Fernando Tenor, Presidente da Sociedade Numismática Brasileira

O norte do estado de Roraima, e o Sul do Rio Grande do Sul no Mapa do anverso da moeda estão com elementos duplicados, além do BR de BRASIL e os traços assimétricos e desalinhados à direita e à esquerda. Todas as peças conhecidas de 1 Cruzeiro 1949 estão no estado de conservação MBC e inferiores. A mesma anomalia ocorre em moedas de 1 Cruzeiro de datas diferentes, e ´também na moeda de 2 Cruzeiros. Pra algumas, denominam de forma confusa como «Mapa Duplo ao Norte», mas é apenas uma variedade da mesma anomalia de Duplicação de Máquina.

Reverso da moeda «2 Cruzeiros 1949», a qual chamam de «Mapa Duplo ao Norte»
Imagem: J. Mesquita Leilões

Reverso da moeda «1 Real 2012 Entrega da Bandeira Olímpica», a qual chamam de «Bandeira Dupla»


Recentemente também surgiu Duplicação de Máquina em diversas denominações e eras do Plano Real, na qual destacamos em especial a que surgiu na peça «1 Real 2012 Entrega da Bandeira Olímpica», por ter aparecido no catálogo de Carmelito Gomes registrada erroneamente como «Batida Dupla», assim como algumas das peças da série das Olimpiadas. Todas são as anomalias insignificantes de Duplicação de Máquina.

Repare que igualmente à «Mapa Duplo», os traços em duplicidade, na palavra "REAL” são assimétricos e desalinhados, caracterizando inequivocadamente como Duplicação de Máquina.

 

Portanto, em síntese, temos:

BATIDA DUPLA: Cunhos batem mais de uma vez. Todos os elementos do design do cunho se repetem na segunda batida (e na terceira, quarta batida, etc… se houver).

MATRIZ DE CUNHO DUPLICADA: Cunhos batem uma vez. Apenas pequenas partes ou elementos do design se repetem, de forma simétrica e alinhada ao design. O elemento duplicado tem a mesma altura de relevo do elemento original.

DUPLICAÇÃO DE MÁQUINA: Cunhos batem uma vez. Apenas pequenas partes ou elementos do design se repetem, de forma assimétrica e desalinhada ao design. O elemento duplicado possui altura intermediária entre o relevo do elemento original e o campo da moeda.

 

Bibliografia utilizada:

- «The Cherrypickers' Guide to Rare Die Varieties», Bill Fivaz e J. T. Stanton
- «The Error Coin Encyclopedia», Arnold Margolis
- «The Complete Guide to Lincoln Cents», David W. Lange
- «U.S. Error Coin Guide», Stan McDonald
- «100 Greatest U.S. Error Coins», Nicholas P. Brown
- «World’s Greatest Mint Errors», Mike Byers
- «Error Coins from A to Z», Arnold Margolis

Finalizo com uma mensagem: Colecionar moedas anômalas é divertido e gratificante, porém é importante conhecer quais são as anomalias importantes e quais são erros sem importância. Espero que este artigo tenha sido útil para todos os amigos numismatas, especialmente para discernir claramente a diferença entre moedas com matrizes de cunho duplicadas e duplicação de máquina.

Caso reste alguma dúvida, deixe abaixo o seu comentário!

 

Atualização em 24 Junho ‘2020

Este artigo foi publicado (com revisões) no site «Numismática Castro» em 7 Março ‘2018 e dividido em dois.
Link: https://numismaticos.com.br/batida-dupla-ou-double-strike/

Link: https://numismaticos.com.br/matriz-de-cunho-duplicada-ou-hub-doubled/

 

Este artigo foi publicado (melhorado) no site «Collectgram» em 28 Fevereiro ‘2019 e dividido em dois.
Link: https://collectgram.com/blog/moeda-batida-dupla-a-verdadeira/ 

Link: https://collectgram.com/blog/moedas-com-erros-matriz-de-cunho-duplicada-a-falsa-batida-dupla/